Transportadoras renovam frota
O setor de transporte rodoviário foi dos que mais sofreu com a crise no começo deste ano. Em alguns ramos, como o de comércio exterior, a retração foi de 40%, mas a queda chegou a 10% na movimentação destinada ao varejo, considerado o mais resistente à crise. Isso acontece porque a expansão – ou retração – do transporte é sempre um múltiplo do crescimento do PIB: para a fabricação e a venda de uma unidade de produto são necessárias várias viagens. No setor rodoviário há quem calcule a relação em três para um.
Com a reversão do quadro de estagnação econômica, o setor está agora mais do que proporcionalmente otimista com o futuro. O volume de carga vem aumentando desde setembro, aparecem novos contratos e o setor já prevê um ano excepcional a partir de dezembro. Em grandes transportadoras, planos de investimento estão sendo tirados da gaveta para renovar a frota e preparar-se para um ano de muito movimento. De quebra, ainda aproveitam enquanto duram as políticas anticíclicas: desde julho estão em vigor linhas de crédito subsidiadas do BNDES para a aquisição de caminhões e para os chamados implementos rodoviários – as carretas.
A taxa da principal dessas linhas, o Finame, voltado a grandes empresas, foi fixado em 7% ao ano, o que garantiu uma redução de cerca de 30% no custo dos empréstimo. Segundo o governo, esse subsídio acaba em 31 de dezembro, assim como a isenção de IPI para caminhões. No setor, muitos acreditam em um prorrogação, mas na dúvida adiantam algumas compras. O Finame bateu recorde histórico em desembolsos em outubro, chegando a R$ 3,2 bilhões, 30% mais do que setembro – o número inclui outros bens de capital, como máquinas para construção civil.
Na transportadora Expresso Mirassol, voltada a produtos industriais, como automotivos, linha branca e contêineres, os planos de investimento são de R$ 20 milhões, dos quais R$ 18 milhões irão para a aquisição de 100 carretas e de 40 cavalos mecânicos. Os outros R$ 2 milhões vão para equipamentos auxiliares – comunicação e softwares de gestão. Segundo o diretor administrativo da empresa, Celso Rodrigues Salgueiro Filho, a segunda metade deste trimestre já apresentou uma recuperação clara na movimentação de carga na Mirassol, e a tendência é uma melhora até o fim do ano, e um 2010 de vendas fortes. Só com os contratos que já tem, a empresa estima um crescimento de até 35% na movimentação de carga em 2010 em comparação com este ano.
Nos primeiros meses de 2009, a empresa registrou uma queda de 25% a 30% na carga movimentada. O resultado foi um contraste com a expansão de 50% registrada no ano passado. Isso acontece devido à ultrasensibilidade do setor de transporte ao PIB, explica o executivo da Mirassol – é possível multiplicar por três o impacto nos transportes. Isso porque a matéria prima deve ser levada ao produtor, daí ao intermediário, ao varejista, e assim por diante. Com as últimas estimativas de crescimento do PIB em 2010, de 5% e até 6% mais recentemente, o executivo prevê um ano forte. “É bem provável que em 2010 venha a faltar transporte” avisa.
Segundo o executivo da Mirassol, a ideia é renovar e ampliar a frota, hoje de 600 conjuntos de carreta e cavalo – além de uma frota flutuante de autônomos de 300 unidades. Com isso, se prepara para o crescimento do mercado, e ainda aproveita as condições favoráveis – todas as compras serão feitas pelo Finame do BNDES. Ainda que para a empresa a diferença não fosse grande – ele diz que conseguiria se financiar, pelas condições antigas, a uma taxa de 8,5%, e agora conseguiu por 7%. Contou ainda a redução do IPI, condições que segundo ele estão “a priori” em vigor apenas até o fim do ano.
Na Atlas Transportes, também especializada em produtos de alto valor agregado – farmacêutica, autopeças e eletrônicos – a perspectiva também é de melhora nas vendas no ano que vem, e com as condições favoráveis de crédito, a ideia é adiantar os planos de renovação de frota. A empresa tinha planos de trocar apenas no ano que vem parte da sua frota de caminhões próprios, cerca de 500 caminhões de pequeno porte usados para distribuição. A empresa tenta aprovar um plano de investimento de R$ 3,2 milhões para renovar a frota própria ainda em 2009 para e aproveitar as condições do Finame e a isenção de IPI. A frota de maior porte, de 800 veículos, é composta na maior parte por autônomos, e já tinha passado por uma renovação em 2008 – um investimento de R$ 10 milhões para a aquisição de 140 carretas.
Segundo o diretor da Atlas, Lauro Felipe Megale, depois de uma contração de 17% na carga transportada no início do ano em relação ao ano passado, daqui para a frente a perspectiva é crescer. Os principais clientes já sinalizaram com uma grande quantidade de carga e o resultado de 2009 já deve fechar melhor do que o de 2008 – especializada em carga fracionada, direcionada ao varejo, a transportadora não foi tão afetada pela crise.
Além do esforço das grandes empresas, renovação da frota de caminhões também acontece entre autônomos e micro empresas, maiores fornecedores do setor. O governo cortou por mais da metade a taxa de juros do procaminhoneiro, linha voltada a esse tipo de cliente, e a movimentação também é recorde. O volume aprovado multiplicou-se por dez e deve fechar outubro próximo a R$ 200 milhões.