Presidente do SETCESP publica artigo no Jornal do Brasil
O presidente do SETCESP, Francisco Pelucio, publicou, no dia 26 de outubro, no Jornal do Brasil, um dos mais tradicionais do país, artigo sobre as necessidades do transporte de cargas. Confira o artigo na íntegra abaixo ou CLIQUE AQUI para visualizar a página do Jornal do Brasil.
O futuro do transporte depende de políticas claras e sérias
Francisco Pelucio – Presidente do SETCESP, em artigo publicado no Jornal do Brasil
O transporte terrestre de cargas no Brasil passa por um momento crítico e isso não é novidade. Há décadas, o setor, principalmente o rodoviário, enfrenta dificuldades com a falta de infra-estrutura viária, restrições à circulação de cargas, acidentes e diversos outros problemas, que passam pela falta de investimentos em rodovias seguras e eficientes para o escoamento das riquezas do País e pela falta de incentivos para as empresas.
O transporte é um dos serviços mais essenciais para o bom funcionamento da economia. Todo cidadão, desde a hora que acorda até a hora que vai dormir, demanda, em todos os momentos de seu dia, algum serviço de transporte. Todos os produtos utilizados pelas pessoas em suas vidas passa por algum momento pelas mãos de uma transportadora.
A falta de boas estradas em nosso País é crônica. No Estado de São Paulo, o cenário é um pouco diferente por causa das concessões rodoviárias, que trouxeram estradas em boas condições, mas com uma contrapartida amarga para as empresas: os onerosos pedágios.
No campo do meio ambiente, o desafio é a redução das emissões de gases, problema que tem sido enfrentado pelas montadoras e pelas transportadoras. As empresas que operam o transporte rodoviário de cargas têm buscado soluções nesta área, com o uso do biodiesel na mistura dos combustíveis e o emprego de estratégicas ambientais, como a regulagem dos motores, o monitoramento das emissões e a busca por uma direção mais econômica e eficiente.
As montadoras têm feito seu papel, desenvolvendo motores mais eficientes e com menores índices de emissão de gases estufa. Projetos piloto de caminhões elétricos e que empregam outras fontes de energia, mais limpa, como o GNV e o etanol, também são vistos, demonstrando uma tendência do setor.
O modal rodoviário, que representa 60% de todo o transporte de cargas no Brasil, é essencial para todas as operações, pois é o único que pode atender à última milha, chegando à porta dos consumidores e dos destinatários das cargas, seja no comércio, na indústria ou no setor de serviços.
Para ser mais rápido, o transporte rodoviário precisa de investimentos em estradas e, nas áreas urbanas, depende de uma mobilidade que é muito atrapalhada pelos grandes congestionamentos que encontramos nas grandes cidades, principalmente em São Paulo.
Além da falta de espaço viário para a realização do transporte, o setor esbarra também nas restrições à circulação de veículos de cargas. Para termos um transporte mais ágil, é necessário priorizar o transporte de cargas, a exemplo do que acontece em grandes cidades do mundo, como Londres e Nova Iorque.
Somente com políticas em favor da mobilidade urbana será possível ter um transporte de cargas mais rápido. É necessário estimular o uso do transporte coletivo, como o metrô, como forma alternativa para retirar carros das ruas. Estimular o uso de veículos como o VUC (Veículo Urbano de Carga, com 6,30 metros entre pára-choques) também é uma medida saudável para a mobilidade urbana.
Como se não bastassem a falta de infraestrutura para o transporte e as restrições ao caminhão nas grandes cidades, o escoamento de produtos entre os Estados brasileiros ainda sofre com mais um problema: as barreiras fiscais Estaduais. Para transpor uma fronteira entre as unidades da Federação, um caminhão tem que parar na barreira e ser fiscalizado. Até aí, o setor entende a necessidade de os Estados verificarem as notas fiscais e o recolhimento dos tributos. Mas, se houver qualquer problema com os produtos transportados e suas notas fiscais, mesmo que seja um problema de natureza do embarcador ou do recebedor, o transportador é obrigado a ser o depositário fiel das cargas e permanecer com os produtos até que a questão seja resolvida, o que gera custos absurdos e atrapalha as operações. Muitas vezes, o caminhão é utilizado como armazém, fato que fere totalmente a natureza deste equipamento, feito para circular.
O transporte terrestre mais limpo e moderno passa também pela conscientização ambiental que os players do setor estão vivenciando atualmente. É preciso aliar a necessidade do atendimento da demanda dos mercados, cada vez maior, com políticas que promovam o desenvolvimento dos veículos, dos operadores e das vias. Combustíveis alternativos, investimentos pesados em infraestrutura viária e pesquisas tecnológicas em novos equipamentos, mais eficientes e menos poluentes são imprescindíveis para o futuro do transporte de cargas. Ligações viárias mais eficazes, como o Rodoanel, que em breve terá seu Trecho Sul inaugurado, são sugestões que o setor tem feito para o poder público no sentido de melhorar a circulação de cargas.
Apesar de todos os entraves, as empresas de transporte de cargas brasileiras têm feito seu papel. Se adaptaram à falta de mobilidade das grandes cidades, buscaram meios mais eficazes para realizar suas operações e estão de olho na sustentabilidade. Somente com a carga tributária, o setor arca com um ônus de mais de 50% de seu faturamento. Como se não bastasse, o roubo de cargas também afronta o setor, obrigando as empresas a investir, em média, 15% de seu faturamento em ações de gerenciamento de risco, como escoltas, rastreamento de frotas e cargas, sistemas de segurança com câmeras e outros aparatos para evitar estes sinistros.
Estes problemas fortaleceram o setor ao longo das últimas décadas. O transporte de cargas no Brasil se profissionalizou e, com o advento da Lei 11.442/2007, que disciplina a atividade em nosso País, toda a frota circulante está sendo novamente cadastrada por meio do Registro Nacional do Transportador Rodoviário de Cargas (RNTRC), realizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
As transportadoras e todo o setor produtivo brasileiro conseguiram superar a crise econômica mundial com criatividade e, principalmente, perseverança, mas, se nada for feito para melhorar a logística e a mobilidade em nossas vias, para combater o roubo de cargas e desonerar as empresas na questão tributária, estamos fadados a um futuro nada promissor.
Sem políticas sérias para o transporte de cargas, assistiremos, em breve, a um verdadeiro colapso logístico no Brasil.
Francisco Pelucio – presidente do SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região).