Órgão sabia do risco de Tietê transbordar, mas não deu alerta
A funcionária pública Creuza de Castro saiu de sua casa para o trabalho por volta das 6h10 da última terça-feira, dia em que choveu na cidade de São Paulo quase 38,5% do previsto para o mês inteiro. Quando passava pela marginal Tietê, próximo à ponte da Freguesia do Ó (zona norte), notou que começou a entrar água no carro. “Fiquei assustada, saí do carro e vi a água chegar até o teto dele.”
O prejuízo de Creuza poderia ter sido evitado pelo CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), órgão da prefeitura responsável por disseminar informações sobre as áreas com risco de alagamento. São esses dados que servem como base para a Defesa Civil e para a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) definirem de que forma eles atuarão em casos de alagamentos. No entanto, o CGE só emitiu um alerta de transbordamento nos rios Tietê e Pinheiros depois que ambos já tinham tomado trechos das marginais, por volta das 5h55.
Se o alerta do CGE tivesse chegado com antecedência, vias que seriam alagadas poderiam ter sido interditadas, emissoras de rádio poderiam informar a população e as concessionárias poderiam avisar motoristas em estradas que chegam à cidade para evitar as marginais, por exemplo.
O próprio gerente do CGE, Flávio dos Santos Rodrigues, admite a falha no sistema do órgão e afirma que vai estudar uma forma de aperfeiçoá-lo.
“Vendo a quantidade da chuva e o nível que o rio [Tietê] já tinha subido, a gente poderia decretar o alerta antes de o rio transbordar. Mas é muito difícil. E se gente decretar um estado de alerta, que é grave, e a coisa não acontecer? Aí, o nosso trabalho perde o crédito.”
Para Armin Augusto Braun, chefe do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, órgão federal, o sistema do CGE “é bom, mas pode não funcionar. Às vezes, as pessoas [técnicos] não acompanham a situação”. No dia da enchente, arrisca, discussões no CGE podem ter retardado um aviso.
“A distância, é difícil dizer, mas será que as pessoas não conseguiram chegar a um consenso [da gravidade do risco]?”
Atraso – Além do impasse ao emitir avisos, o CGE não usa sistemas mais modernos, como o do Laboratório de Hidrometeorologia da USP, critica o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto. O laboratório trabalha com radares e medição, que dão uma previsão de vazão para os rios. Segundo Rodrigues, do CGE, a prefeitura analisa a possibilidade de usar esse sistema. A servidora Creuza agradece.