Brasil é prioridade no plano mundial de expansão da MAN
A participação do Brasil vai ganhar mais peso na estratégia da fabricante de caminhões alemã MAN, que busca no potencial dos mercados emergentes uma saída para enfrentar a estagnação do mercado europeu.
Segundo o presidente mundial da companhia, Hakan Samuelsson, daqui quatro a cinco anos a fatia dos mercados fora da Europa nas vendas da marca vão dobrar dos atuais 25% para 50%. Até lá, o executivo prevê que a receita anual da companhia, de € 15 bilhões hoje, deverá crescer ao ritmo de 10% ao ano.
Mais duas ações nesse novo foco da MAN, que em dezembro comprou a filial brasileira da Volkswagen Caminhões e Ônibus, foram anunciadas ontem, na sede da empresa, em Munique: a primeira é o início da produção de dois modelos de caminhões extrapesados da marca MAN no Brasil daqui a no máximo dois anos. A segunda é a escolha de uma empresa brasileira, a MWM International, para ser a produtora dos motores MAN no Brasil.
Mas a participação brasileira no novo plano estratégico da companhia alemã irá mais além. Segundo Samuelsson, a longo prazo, o desenvolvimento das linhas de caminhões leves e médios do grupo será feito em parceria entre as equipes da Europa e do Brasil. “Os recursos existentes no Brasil serão cruciais no desenvolvimento da próxima geração de modelos leves e médios”, diz o executivo. “Nós não teríamos pago tanto dinheiro pela operação brasileira se não tivéssemos percebido esse potencial de desenvolvimento de produto, além da capacidade de produção”, acrescenta.
A MAN pagou € 1,175 bilhão pela filial brasileira da Volks Caminhões e Ônibus, que passa a se chamar MAN Latin America. O plano de explorar novos mercados, notadamente nos países do Bric, é uma das marcas da gestão de Samuelsson, no cargo desde 2005. A aquisição de uma fábrica já em operação no Brasil foi a terceira investida da MAN no processo de expansão fora da Europa.
O primeiro passo nesse processo foi dado em 2006 com a abertura de uma fábrica na Polônia, que também abastece o mercado da Rússia. Em 2007, a MAN fez uma joint venture com a Forec Motors, fabricante da Índia. A última parte da estratégia foi concluída em julho, quando a companhia alemã comprou 25% da Sinotruck, montadora de veículos pesados da China, listada na Bolsa de Valores de Hong Kong.
Na futura linha de atuação que a MAN está definindo, no momento em que completa 250 anos de história, haverá espaço para sinergias entre os novos parceiros. Samuelsson identifica, por exemplo, oportunidades de trabalho conjunto entre Brasil e Índia. Os parceiros locais nesses dois países trabalham com tamanhos similares de motores. Da mesma forma, o executivo prevê trabalhos conjuntos entre as equipes da China e Europa.
Samuelsson conhece bem o Brasil. Nascido na Suécia, ele foi diretor na filial brasileira da Scania entre 1993 e 1996, período do qual guarda a lembrança da súbita mudança de uma economia de inflação alta para um período de estabilidade.
Mas não é apenas no mercado de caminhões que a MAN tem interesses no Brasil. Fabricante de motores para navios e para geradores de energia elétrica, a companhia alemã está de olho nesses dois setores e, segundo Samuelsson, tem especial interesse em participar das vendas de navios voltadas ao processo de expansão dos negócios da Petrobras.
As vendas de motores para navios estão, de certa forma, compensando as drásticas perdas de vendas de caminhões na Europa. O balanço da companhia no segundo trimestre mostra que enquanto a margem operacional com caminhões caiu 74% , a de motores manteve-se praticamente estável. “Conseguir uma situação de breakeven num momento em que o mercado de caminhões europeu cai 50% nos faz um grupo de sorte”, afirma o executivo. Na Europa, a MAN teve de recorrer a licenças temporárias para empregados, uma fórmula que recebe sustentação financeira de governos de alguns países, como a Alemanha.
A Volkswagen tem 29,9% das ações da MAN e outros 68,6% na Scania. Executivos da Volks teriam comentado recentemente, segundo a imprensa europeia, a respeito de planos da empresa para elevar a participação na MAN e, assim, ampliar seu domínio sobre as marcas de veículos pesados Mas Samuelsson não quer comentar essa possibilidade. “Não quero especular sobre isso”, diz o executivo.
Para ele, o que importa agora é manter o foco nos mercados emergentes. “Com a crise que enfrentamos hoje é preciso ter o foco na administração do negócio. Mas, ao mesmo tempo, os tempos ruins na Europa vão passar e se quisermos nos preparar para ser líderes no futuro, investir em novos mercados representa o fundamento para uma companhia mais forte no futuro”.
Por: Marli Olmos