Ponte e túnel podem ter custos equivalentes, dizem especialistas

O argumento do Governo de São Paulo para descartar o túnel como ligação seca entre as duas margens do Porto de Santos, ou seja, que esta opção custaria cinco vezes mais do que a ponte estaiada, não procede, segundo especialistas em engenharia e geologia. Para eles, exemplos internacionais apontam que os custos de construção de ambos os tipos de soluções técnicas são compatíveis.

“Quando se usa dado europeu (para comparação), pode haver discrepância de 20%, 30%. Mais cinco vezes? Eu gostaria de ver esse número”, diz o presidente do Comitê Brasileiro de Túneis (CBT), Tarcísio Barreto Celestino.

Conforme calculou o secretário estadual de Transporte, Mauro Arce, em meados do mês passado, a ponte estaiada entre os bairros Ponta da Praia, em Santos, e Santa Rosa, em Guarujá, custaria em torno de R$ 500 milhões.

COMPARAÇÃO

Doutorem Engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e em Mecânica das Rochas pela Universidade da California (EUA), Celestino chefiou o grupo que entregou ao Governo do Estado, no ano passado, um levantamento sobre a construção de túneis submersos pelo mundo. Na época, o próprio governador José Serra defendeu publicamente a obra e cobrou verbas da União para realizá-la.

O CBT chegou à conclusão de que é viável economicamente a construção de um túnel submerso pré-moldado ligando as duas margens do Canal do Estuário. Neste tipo de empreitada, as diversas partes de concreto que formam o segmento completo seriam feitas em fábricas próximas e transportadas, por flutuantes, até o destino, onde seriam afundadas. Uma vez no leito ¬ cavado previamente até a profundidade desejada ¬, estas aduelas seriam unidas e, posteriormente, a água bombeada para fora da estrutura.

De acordo com Celestino, não é possível dizer precisamente qual seria o custo desta obra antes da elaboração do projeto, que definiria, por exemplo, o traçado e a profundidade necessários. Mas é possível chegar a um valor aproximado, considerando variantes, por meio de estudos de casos semelhantes pelo mundo.

O levantamento mostrou os exemplos de preço nos locais onde a tecnologia foi utilizada. O túnel de Oresünd, ligação de quatro quilômetros de extensão entre a Dinamarca e a Suécia, custou US$ 900 milhões. O Beato-Mantijo, em Portugal, com seis quilômetros de pista, custou US$ 1,4 bilhão. O Saigon, no Vietnã, de 370 metros, custou US$ 74 milhões. Todos os valores foram atualizados pelo câmbio do ano passado. O túnel entre Santos e Guarujá teria cerca de um quilômetro de extensão.

O resünd é uma ponte-túnel existente entre os países nórdicos. É o local de passagem de navios cargueiros e, portanto, não poderia ser fechado por qualquer tipo de construção. Por isso, em determinado trecho, a ponte mergulha e se transforma em túnel.

“O caso de Oresünd é didático. É uma ponte baixa até onde ela é barata. No ponto onde há navegação, vira um túnel submerso. Porque se fossem subir o gabarito da ponte para permitir a passagem de navios, não seria mais barato”, afirma Celestino.

O professor-doutor Roberto Kochen, que ministra a disciplina Mecânica do Solo, Fundações, Túneis e Barragens na Poli-USP, também refuta a tese de que a construção de um túnel pré-moldado custaria cinco vezes mais do que a ponte estaiada. “Poderia ser de 50% a 60% mais caro, mas cinco vezes é um número exagerado. Não é tudo isso, não”, refutou sobre a avaliação do Estado.

O especialista compôs a equipe que implantou um túnel submerso para transporte de água entre Santos e Guarujá, passando por baixo do estuário, a pedido da Sabesp. A companhia, no entanto, não optou pelos prémoldados, mas por tubulações de aço instaladas por meio de um furo no solo.

“Economicamente, a ponte (para transporte rodoviário entre Santos e Guarujá) seria realmente mais viável.Tem casos parecidos em Vitória (Terceira Ponte) e no Rio de Janeiro (Ponte Rio-Niterói). Mas o túnel tem que ser considerado. É uma solução importante especialmente em termos urbanísticos e ambientais”.

Por: Samuel Rodrigues