Pouco asfalto para o sonho de ser competitivo

No início dos anos 2000, as projeções apontavam para um Brasil próspero nesta década, com um crescimento econômico que há muito tempo não se via. Enquanto que, para alguns, seria mais um motivo para comemoração, para os mais cautelosos um crescimento acima de 5% do PIB já apontava um sinal de alerta: o Brasil poderia parar. Seu principal gargalo, a infraestrutura, não comportaria um crescimento desse porte.

Especificamente no setor de transportes, um dos que mais carece de melhorias e obras de ampliação, o país deixa muito a desejar. A dependência é muito grande das rodovias, a precariedade delas é notória e a frota de caminhões é muito antiga. Três quesitos que, ao serem colocados na balança, resultam em um custo logístico bem acima dos países desenvolvidos, tornando o Brasil pouco competitivo.

Também de acordo com as projeções, o Brasil seguiu no ritmo de crescimento, um aumento de 5,4% do PIB em 2007 em relação ao ano anterior e, em percentuais menores, 2008 terminou com um crescimento de 4% do PIB, refletindo a crise econômica mundial a partir do último trimestre do ano.

Nesses intervalos, pouco foi feito para incrementar a infraestrutura. O total previsto pelo Programa de Aceleração do Crescimento, um pacote de R$ 58,3 bilhões de recursos para esta área, para o período de 2007 e 2010, é insuficiente. Estima-se que seriam necessários pelo menos R$ 50 bilhões somente para as estradas, isso sem falar dos modais ferroviário e hidroviário.

O país parou no tempo e os gastos com transporte também ficaram para trás, naqueles anos das décadas de 60 e 70, quando o governo investia cerca de 2% em transportes e, a partir da década de 90, esse percentual não chegava nem a 0,5 ponto percentual. Um atraso que vai custar muito caro. Afinal, de uma extensão de 1,610 milhões de quilômetros de malha rodoviária, apenas 12% são pavimentados, e estamos falando de uma matriz que é a maior responsável pelo transporte de carga no país (60%), à frente da ferroviária (25%) e da hidroviária (17%).

Além da precariedade das estradas, o que faz com que o Brasil tenha um dos maiores custos logísticos do mundo, na ordem de 18%, mais do que o dobro dos Estados Unidos, velhos caminhões trafegam pelas rodovias, o que é um risco para toda a sociedade. “A idade média deles é de 18 anos, duas vezes maior do que poderia ser. Em um país do primeiro mundo é entre 8 e 10 anos. O ideal é no máximo 8 anos, pois a partir disso o caminhão já passa a consumir muito combustível e gastos com a manutenção”, disse Antonio Roberto Cortes, presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus, em entrevista ao programa “Giro Business”, acrescentando que um dos principais impasses para a renovação da frota são os caminhoneiros autônomos, que não conseguem crédito por falta de garantia a oferecer.

“Por outro lado, a frota precisa ser renovada, e esse é o grande potencial que temos daqui para frente. E o governo já tomou algumas medidas”, completa Cortes.

Vendas em alta

No ano de 2007, as montadoras comemoraram recorde de vendas de caminhões dos últimos 30 anos, acima de 30% em relação ao ano anterior. Já no ano passado o incremento foi de 24% comparando a 2007, demonstrando que, mesmo com a crise, as vendas continuaram aquecidas e houve, sim, uma mão do governo para que isso acontecesse, assim como foi para a indústria automobilística. “2008 foi um ano excelente, assim como os dois anos anteriores. No último trimestre tivemos uma redução de vendas, mas as medidas adotadas pelo governo, como a isenção do IPI para caminhões (antes de 5%) e a injeção de dinheiro em bancos governamentais para linhas de financiamentos, que respondem por 90% das vendas de caminhões, fez com que a liquidez voltasse e começasse a normalidade. Além disso, a nossa maior forma de financiamento, a modalidade chamada Finame (subsidiado pelo governo), foi ampliada. Antes, financiava-se 80% do valor do caminhão, e agora o comprador financia o valor total. O Governo está reagindo e, com isso, ele está compensando essa queda geral da atividade que todo mundo está acompanhando”, afirmou Cortes, complementando que a expectativa é que a economia volte à normalidade, sem muita ajuda do governo. “Mas, sem dúvida, ela veio na hora certa”.

Potencial de renovação

Enquanto a economia brasileira vive em um período de desaceleração, muitas expectativas rondam o futuro nos mais diversos setores, e a grande questão é quando se dará a retomada do crescimento. No setor de transportes não poderia ser diferente, dependente da indústria de bens de capital, que vive um momento de cautela em relação aos investimentos, Cortes prevê que a crise tem data para acabar. “Esperamos que o segundo semestre a situação comece a se normalizar e o mais importante é que os fundamentos da economia brasileira atualmente estão bem mais sólidos do que no passado. Não sentimos tanto a crise hoje como em décadas passadas e estamos muito otimistas em relação ao futuro”. E potencialidade há para isso. “O país terá que recuperar os meses e anos de atraso em relação à renovação da frota de caminhões. Entre os países do grupo Bric, o Brasil é o que tem maior potencial para crescer nesse setor, principalmente pela grande dependência que tem das rodovias no transporte de cargas. Se fizemos um paralelo, até pouco tempo atrás víamos muitos carros velhos nas ruas. Hoje, eles são raros de serem vistos e essa renovação aconteceu em pouco tempo”, comparou.

Custo e competitividade

Para o executivo da Volkswagen Caminhões e Ônibus, o Brasil tem muitos desafios pela frente, mas também muitos pontos positivos que fazem o equilíbrio da balança, em termos de competitivo. “No dia a dia, o custo Brasil tem uma carência muito grande em relação à infraestrutura, que deve ser melhorada com o PAC, assim como a questão da logística e exportação, e também dos altos impostos, que somados afetam a competitividade dos nossos produtos. Pagamos uma das mais altas taxas anuais de juros do mundo, cerca de 15%, enquanto os americanos estão pagando entre 1% e 2% ao ano. Mas, em contrapartida, o Brasil é um país que tem mão-de-obra qualificada e uma boa produtividade. Essa combinação de fatores positivos é o que nos leva a um equilíbrio da competitividade”. Uma competitividade que poderia ser bem melhor, com um equilíbrio de infraestrutura adequada e uma frota atualizada, possibilitando assim ao Brasil tornar-se uma potência. Enquanto isso…

Sergio Waib é empresário e apresentador de TV